sábado, janeiro 20, 2007

NA PRATELEIRA

Passo a passo … dedilho e sigo sem pensar no que senti… no que ainda me marca a pele, dos prenúncios elaborados e das dúvidas pressentidas! Sabes-me bem… ainda…. no que deixaste apegado a mim neste coiro usado que carrego comigo do meu alto orgulhoso, que sem me definir... me pertence e marca… e não me deixa curvar mais vez alguma à sabedoria dos outros! Usaste-o sem o desfolhar, olhaste-o sem o ler, pegaste-o sem seres detentor desse direito! Curioso…perdi-me mas voltei, para mim, para o meu canto de novo! Para a minha prateleira cheia de outros livros velhos mas preciosos e por explorar. Sei-o porque não encontrei o que procurei, também! Indaguei-me vezes sem número, porque haverias tu de escolher precisamente este livro, de capa tão estranha, enrugada pelo trato e fora do contexto… pressenti-o … e quedei- -me a espiar o que nele lias. Tão culto, tão certo de ti, tão... duro por dentro! O relógio a fazer tic tac tic tac tic tac… no meu ouvido direito, enquanto no esquerdo esperava um sussurro na tua voz…um sopro apenas! Sabes que não deves nunca possuir um livro sem o tempo necessário?…. Não saberias desfolhar página a página saboreando com deleite tudo o que uma história tem e guarda de secreto e belo dentro de si. É preciso tempo, sabes… breves minutos apenas por vezes, de um tempo que urge cada vez mais! Capa dura, letra trôpega mas mesmo assim legível a quem a olha com alma nua de preconceitos… é assim o meu livro, aquele que te coloquei nas mãos com esperança de o acarinhares num qualquer canto banhado de luz… e perderes-te de olhos abertos por breves segundos…depois minutos…horas e quem sabe…uma vida! Mas o livro que abriste não te pertence…e logo terás que o devolver à prateleira de sempre, por entre o pó que dele se ocupou num tempo antes de ti. Até que um sopro regresse dessa janela que de tempos a tempos areja e renova a sala, deixo entrar a luz e com ela as marcas do tempo… aqui fico, nesta prateleira segura, acompanhada de mim mesma, lendo-me página a página e conhecendo-me antes de outro olhar se cruzar com a minha capa maltratada, rasgada, enrugada por entre tantas outras capas! Queria que soubesses… que embora o sol nem sempre chegue às minhas páginas amarelecidas … vale a pena morrer por momentos entre o pó, para que de repente …num sopro apenas…a vida entre pela janela, traga o sol pra me marcar e volte a escrever mais uma página do que me faz regressar a ela! Mas esta prateleira…essa será sempre minha, o meu refúgio, o meu local de descanso, onde me releio e confirmo, onde acumulo e arrumo o todo de que a vida me vai preenchendo… aos poucos… sempre aos poucos… mas para sempre, aqui dentro marcado, sem páginas rasgadas! Nesta capa dura… que pegaste mas não leste!

Sem comentários: